Vasculhando memórias de minha infância, percebo um evento de menor significância, mas que hoje me faz pensar bastante. Em algum natal esquecido (eu acho), eu e minhas primas ganhamos um 'pianinho' de presente de algum parente em comum - ou nossas mães combinaram de dar o mesmo item. Não importa, fato é que eu e elas tínhamos aquele piano. O troço tinha seu tecladinho, que funcionava até bem, e um monte de outros botões coloridos com figuras de animais, que quando se apertava, saia o som de vaca e galinha. Havia um botão maior que os outros também, que quando se apertava o piano produzia uma melodia pré-programada, que se não me engano era a música do "Seu lobato tinha um sítio...". Hoje penso o quão infernal era três crianças tocando isso o dia inteiro pela casa. Vai ver é o motivo de eu ter "perdido" o piano - e com ele minhas habilidades musicais. Poderia me tornar um Mozart da vida, mas foi arruinado.
Onde quero chegar é: Certa vez, minhas irmãs, que são mais velhas que eu, decidiram fazer um experimento científico envolvendo meu piano com o da minha prima. Elas iriam apertar o botão maior, que tocava "seu lobato" ao mesmo tempo, e esperar pra ver o que acontecia. Com um pouco de treino, chegou o momento em que elas conseguiram alinhar o som, tornando a música tocada pelos dois pianos um unissomo. Só que algo engraçado acontecia: depois de uns dez segundos de música, os pianos perdiam a sincronia, e um deles ficava atrasado em relação ao outro. Isso nos dava gostosas gargalhadas (não sei porque) e vivíamos a repetir o feito. A explicação que nos foi dada na época era a mais óbvia: que a pilha de um dos pianos estava mais fraca, isso fazia com que a música fosse se atrasando em micro-segundos, e deixando a melodia mais pra trás em relação à outra. Nunca chegamos a testar essa hipótese (comprando pilhas novas para os dois pianos e vendo no que dá), mas isso também nem era importante. O piano se atrasava e pronto, era a vida, pra que insistir?
Mas hoje eu acabo por me pegar pensando no fato. E se não forem as pilhas as responsáveis? E se, na verdade o tempo de um piano corresse diferente do tempo de outro piano? Ora, pela navalha de occam, as pilhas que eram as responsáveis, certamente. Porém minha mente vagueia por universos de possibilidades, e uma pitada de fantasia e LSD não dói (não uso drogas!).
Se o tempo poderia correr diferente de um piano para o outro, então poderia acontecer com as pessoas também. E eu sei que isso acontece de verdade, com a teoria da relatividade de Einstein. Acontece com nossos satélites, acontece em aviões... Só que para acontecer é preciso estar em movimento. Os pianos estavam parados. Mas a música (ondas sonoras) se movimentavam... Enfim, acaba que sempre penso que o que eu vejo como 'presente' não é o mesmo 'presente' de outrem. Posso conversar com uma pessoa, mas o que me garante que esse 'momento do agora' para mim não é uma lembrança daquela pessoa, que está no futuro do meu agora lembrando de nossa conversa?
Ficou confuso, e está tarde. Hora de dormir porque amanhã tenho aula. Mas veja, amanhã para meu agora. Se você ler isso em outra época, já será passado. Maldito seja o tempo, e o sítio do seu lobato!
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terça-feira, 10 de maio de 2016
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
Como eu me tornei Tyler Durden
Eu não sou especial. Nunca fui e nunca vou ser. Talvez por isso que eu tenha me tornado ele: Tyler Durden.Alguns adoram Jesus, Buda, Exú, Bolsonaro ou Aleister Crowley. Eu não adoro ninguém. Na verdade, esse é o maior erro dos idiotas: a adoração.
Veja bem, um herói não está ali para ser idolatrado; um herói está ali para dar o exemplo, para servir de modelo para como você deve ser - ou em quem você deveria se inspirar.
Quando se coloca um ídolo num pedestal, você perde grande parte do jogo, acredite. Quando se adora uma personalidade, você acaba negando a si mesmo, a sua própria essência. Você nega que você mesmo é capaz de se tornar o herói, e fica a vida inteira esperando que o Superman venha até sua cidade salvar o gatinho lindo que ficou preso na árvore. Quando se adora uma personalidade, você perde seu próprio brilho, se torna um preguiçoso de merda e fica acomodado.
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
O temível Dragão de Névoa
O samurai urbano se prepara para um desafio, talvez um desafio mortal.
Durante toda a sua vida, o samurai teve que viver escondido, com vergonha, pelo fato de não aceitar a si mesmo como é. Era tímido, quieto, introvertido. Não se engane, pois, o samurai ainda é assim! Só que agora é diferente...
O samurai urbano cursa Radiologia. O samurai urbano é tímido, não gosta de falar. Prefere ficar na sua, aprendendo sozinho, crescendo sozinho. Vê nos outros um problema: eles não são como o samurai urbano.
Alguns apresentam características semelhantes a ele, mas são diferentes; o samurai urbano sabe, o samurai urbano vê.
No curso, que parecia inofensivo, o samurai reconhece um problema: ele precisa sair da sua zona de conforto, do seu covil interior, e interagir com os demais membros do curso. O samurai não quer isso, mas lhe é cobrado assim - e por causa das regras de etiqueta que ele sempre carrega consigo, assim ele faz.
Pretendia não fazer amizades, mas falhou, foi preciso fazer. Ainda mantém a promessa de não fazer amizades profundas, mas não sabe se cumprirá. Ele sabe que fará o possível.
O que interessa pra essa história é: em um momento, o samurai urbano se vê num grupo de amigos, com a qual fará um trabalho em conjunto. Por causa de experiências anteriores, a astúcia do samurai lhe diz que isso é furada, e que ele sempre vai se dar mal. Mas não há outra escolha: é fazer isso ou ser reprovado.
E como ele é um samurai, ele reconhece o valor de um sacrifício. Será somente um dia, um momento. Quem é o samurai parante todo o universo? O universo tem bilhões de anos, e o samurai irá apresentar o trabalho em grupo por, no máximo, dez minutos. Um pequeno sacrifício. Quantos não passaram por coisa pior?
O problema é o peso. Aquilo era o Dragão para o samurai, o abismo. Era seu bicho-papão, seu rival, sua sombra. A vergonha, a timidez, a insegurança. Tudo pairava nesse trabalho. Mas não havia escolha, ele tinha que enfrentar.
No fim, o samurai teve uma resposta. Talvez um alívio dos deuses da timidez: a professora do curso aliviou a barra dos alunos e, não sendo mais preciso apresentar na frente da turma, seria feito uma roda com as cadeiras e todos trocariam idéias. O samurai sente um alívio. O Dragão não era tão poderoso assim, afinal. Seria fácil.
O dia fatídico chega, e o samurai passara horas antes estudando com afinco. Ele dedicou toda sua sapiência no assunto. Aprendeu todas as artes secretas do tema abordado pelo seu grupo - e armado com sua espada intelectual e sua armadura da segurança, ele foi para a aula.
Diante de uma chuva torrencial, o samurai urbano caminhava, e a cada passo, ele martelava seu discurso na mente. Não podia falhar, não podia gaguejar, não podia nada.
Ele chega na aula, e se aquece na sua cadeira. Um a um, os outros membros do curso vão chegando. E um a um, os membros do seu grupo também. O samurai os cumprimenta, e ele sente o nervosismo deles. Na verdade, no ar da sala paira uma certa tensão. O samurai nunca foi o único a ter medo: todos ali tinham. Embora não fossem samurais... Mas eram humanos. E o samurai urbano assim também era. Nesse ponto, eles são iguais.
A professora organiza a sala em círculos, e os grupos vão começando. O samurai vê o terror nos olhos de seus amigos. Ele não diz nada. Abre seu caderno e relê suas anotações.
Os grupos começam a ler o trabalho. Ler, literalmente. Abrem seus trabalhos xerocados e começam a ler, como um discurso que não foi ensaiado, como se tivessem lendo a Bíblia, sem nenhuma cerimônia.
O samurai urbano não entende. Aquilo era um seminário, não um grupinho de Alcoólicos Anônimos. Ele sabe que tem uma coisa errada, ele sabe. Ele estudou a finco a madrugada inteira. Ele se preparou, treinou, ensaiou, teve medo, teve frio, teve fome. Não era certo. Cadê o Dragão, afinal?
Ele entendia a misericórdia da professora em dar essa abertura aos alunos, mas ele havia sido criado no Rigor de Geburah, com ele, era matar ou morrer. Ele sabia o que tinha que fazer, como jamais soube antes. Se lembrou das palavras do amigo Comentarista: "Vá, na cara de pau!" e ele soube que o Dragão dele o esperava. Não um Dragão como os dos outros; os deles eram os Dragões de humanos. Para os samurais havia outros Dragões.
Então quando chegou a sua vez, todos os olharam. O samurai sabia, muitos ali o achavam tímido, muitos ali conheciam suas fraquezas. Mas não conheciam suas qualidades. E no meio dos humanos que achavam que ele iria falhar, o samurai urbano se levantou. Caminhou até à frente de todos, deixou o caderno de lado e começou sua aula, que havia treinado incansavelmente em sua mente.
Ouviu vozes de surpresa, e olhos arregalados. Ninguém imaginava que ele se levantaria e enfrentaria o Dragão, sozinho, como ninguém havia feito antes. Ele sentiu que era um herói, e sua armadura da segurança brilhou forte, e ele sabia que estava em casa (câncer - o carro). Deu sua aula. Nervoso, sim, mas de pé. E quando terminou, o Dragão estava no chão, já morto, e os membros da turma o aplaudiam, de uma maneira especial, como não aplaudiram ninguém.
O samurai soube que saíra vitorioso. E o momento depois da batalha foi o mais confortador de todos. Ele sabia que todo o sacrifício tem uma recompensa, e agora ele estava mais forte.
O Dragão morreu, naquele dia, mas ele sabe que o Dragão voltará. Cedo ou tarde, ele voltará. Mas quando voltar, o samurai urbano estará pronto, pois agora ele sabe as manhas. Agora ele sabe como ser um herói.
Durante toda a sua vida, o samurai teve que viver escondido, com vergonha, pelo fato de não aceitar a si mesmo como é. Era tímido, quieto, introvertido. Não se engane, pois, o samurai ainda é assim! Só que agora é diferente...
O samurai urbano cursa Radiologia. O samurai urbano é tímido, não gosta de falar. Prefere ficar na sua, aprendendo sozinho, crescendo sozinho. Vê nos outros um problema: eles não são como o samurai urbano.
Alguns apresentam características semelhantes a ele, mas são diferentes; o samurai urbano sabe, o samurai urbano vê.
No curso, que parecia inofensivo, o samurai reconhece um problema: ele precisa sair da sua zona de conforto, do seu covil interior, e interagir com os demais membros do curso. O samurai não quer isso, mas lhe é cobrado assim - e por causa das regras de etiqueta que ele sempre carrega consigo, assim ele faz.
Pretendia não fazer amizades, mas falhou, foi preciso fazer. Ainda mantém a promessa de não fazer amizades profundas, mas não sabe se cumprirá. Ele sabe que fará o possível.
O que interessa pra essa história é: em um momento, o samurai urbano se vê num grupo de amigos, com a qual fará um trabalho em conjunto. Por causa de experiências anteriores, a astúcia do samurai lhe diz que isso é furada, e que ele sempre vai se dar mal. Mas não há outra escolha: é fazer isso ou ser reprovado.
E como ele é um samurai, ele reconhece o valor de um sacrifício. Será somente um dia, um momento. Quem é o samurai parante todo o universo? O universo tem bilhões de anos, e o samurai irá apresentar o trabalho em grupo por, no máximo, dez minutos. Um pequeno sacrifício. Quantos não passaram por coisa pior?
O problema é o peso. Aquilo era o Dragão para o samurai, o abismo. Era seu bicho-papão, seu rival, sua sombra. A vergonha, a timidez, a insegurança. Tudo pairava nesse trabalho. Mas não havia escolha, ele tinha que enfrentar.
No fim, o samurai teve uma resposta. Talvez um alívio dos deuses da timidez: a professora do curso aliviou a barra dos alunos e, não sendo mais preciso apresentar na frente da turma, seria feito uma roda com as cadeiras e todos trocariam idéias. O samurai sente um alívio. O Dragão não era tão poderoso assim, afinal. Seria fácil.
O dia fatídico chega, e o samurai passara horas antes estudando com afinco. Ele dedicou toda sua sapiência no assunto. Aprendeu todas as artes secretas do tema abordado pelo seu grupo - e armado com sua espada intelectual e sua armadura da segurança, ele foi para a aula.
Diante de uma chuva torrencial, o samurai urbano caminhava, e a cada passo, ele martelava seu discurso na mente. Não podia falhar, não podia gaguejar, não podia nada.
Ele chega na aula, e se aquece na sua cadeira. Um a um, os outros membros do curso vão chegando. E um a um, os membros do seu grupo também. O samurai os cumprimenta, e ele sente o nervosismo deles. Na verdade, no ar da sala paira uma certa tensão. O samurai nunca foi o único a ter medo: todos ali tinham. Embora não fossem samurais... Mas eram humanos. E o samurai urbano assim também era. Nesse ponto, eles são iguais.
A professora organiza a sala em círculos, e os grupos vão começando. O samurai vê o terror nos olhos de seus amigos. Ele não diz nada. Abre seu caderno e relê suas anotações.
Os grupos começam a ler o trabalho. Ler, literalmente. Abrem seus trabalhos xerocados e começam a ler, como um discurso que não foi ensaiado, como se tivessem lendo a Bíblia, sem nenhuma cerimônia.
O samurai urbano não entende. Aquilo era um seminário, não um grupinho de Alcoólicos Anônimos. Ele sabe que tem uma coisa errada, ele sabe. Ele estudou a finco a madrugada inteira. Ele se preparou, treinou, ensaiou, teve medo, teve frio, teve fome. Não era certo. Cadê o Dragão, afinal?
Ele entendia a misericórdia da professora em dar essa abertura aos alunos, mas ele havia sido criado no Rigor de Geburah, com ele, era matar ou morrer. Ele sabia o que tinha que fazer, como jamais soube antes. Se lembrou das palavras do amigo Comentarista: "Vá, na cara de pau!" e ele soube que o Dragão dele o esperava. Não um Dragão como os dos outros; os deles eram os Dragões de humanos. Para os samurais havia outros Dragões.
Então quando chegou a sua vez, todos os olharam. O samurai sabia, muitos ali o achavam tímido, muitos ali conheciam suas fraquezas. Mas não conheciam suas qualidades. E no meio dos humanos que achavam que ele iria falhar, o samurai urbano se levantou. Caminhou até à frente de todos, deixou o caderno de lado e começou sua aula, que havia treinado incansavelmente em sua mente.
Ouviu vozes de surpresa, e olhos arregalados. Ninguém imaginava que ele se levantaria e enfrentaria o Dragão, sozinho, como ninguém havia feito antes. Ele sentiu que era um herói, e sua armadura da segurança brilhou forte, e ele sabia que estava em casa (câncer - o carro). Deu sua aula. Nervoso, sim, mas de pé. E quando terminou, o Dragão estava no chão, já morto, e os membros da turma o aplaudiam, de uma maneira especial, como não aplaudiram ninguém.
O samurai soube que saíra vitorioso. E o momento depois da batalha foi o mais confortador de todos. Ele sabia que todo o sacrifício tem uma recompensa, e agora ele estava mais forte.
O Dragão morreu, naquele dia, mas ele sabe que o Dragão voltará. Cedo ou tarde, ele voltará. Mas quando voltar, o samurai urbano estará pronto, pois agora ele sabe as manhas. Agora ele sabe como ser um herói.
quinta-feira, 4 de junho de 2015
A corte dos vermes imundos.
O samurai urbano se vê na rua, sozinho, no frio e no calor. Sua armadura feita com escamas de caranguejo, e sua força vindo do mais poderoso imperador... Ele anda no meio de vermes, aqueles seres gosmentos, que embora pareçam maiores que ele, são mais podres e mais deploráveis.
O samurai senta ao chão com eles, come com eles, bebe com eles, mas de suas bocas só sai groselha enlatada, pronta pra ser degustada por ratos e criaturas dos bueiros. O samurai nada fala, nada faz. Apenas observa em silêncio. Sua katana, chamada "Crítica", está embainhada.
Os vermes, por sua vez, atacam uns aos outros. Todos ficam competindo pra ver quem está certo, que é mais belo, quem "zoa" mais o outro, quem é o "macho alpha". O samurai percebe o clima, percebe o medo entre eles. Os vermes não compreendem, mas o samurai sim. Entre eles há o medo. Não o medo dos heróis, na hora de enfrentar seu Dragão, seu maior desafio, mas o medo dos covardes, o medo dos cachorros, quando veem algo assustador.
O medo de ser menor, ser o mais fraco, de ser zoado e humilhado. O medo do Ego, o medo do verme.
É uma luta terrível, luta de palavras, de diálogos. E no meio da luta, uma deusa passa por perto. Uma mulher linda, com o corpo coberto de mel, que faz os vermes babarem... A deusa caminha longe, e nem olha para os vermes, e tão pouco para o samurai. Mas ainda assim os vermes a endeusam, a glorificam, como um pedaço de carne ambulante, sem perceber sua essência, seu brilho, seu amor. Para os vermes, a deusa é apenas um tesouro a ser conquistado, nada diferente de suas migalhas que os vermes tem.
O samurai apenas observa; ele vê a beleza da deusa, mas por ter conquistado certa sabedoria, sabe que o que importa da ostra, no fim, é a pérola.
Mas como explicar para os vermes?
O samurai tenta, várias, várias vezes. Mas os vermes riem dele, e suas risadas exalam um bafo asqueroso, que faz o samurai se calar novamente.
O samurai pensa que é uma batalha inútil. Vermes são vermes, vermes jamais entenderão o cantar de um pássaro, ou a dança da realidade. Mas o samurai é teimoso, e ainda tenta, mas de nada adianta.
Um verme grita pra todos, pra provar que é mais forte, o verme fala alto, berra. O verme ataca verbalmente todos, mas no fundo, é o mais fraco, e só quer um espaço, um momento pra ser especial. O samurai sabe.
Outro verme é O verme. Ele se vagloriza, se orgulha de ser verme, e acha que todos tem que ser vermes igual ele. Ele não conhece outra natureza, que não seja ser verme, e o samurai apenas o observa, sem falar.
O verme maior bate no peito, se achando o máximo, mas todos o atacam, e ele fica sem ação. Seu histórico é de glórias entre os vermes, mas o samurai sabe, que no fundo, ele jamais quis ser verme, mas como não há escolha, ele é.
Pois assim é o mundo dos vermes, o samurai pensa: Os vermes não tem vontade, não sabem o que querem. Não há escolha para os vermes, exceto ser verme.
Há um, no entanto, que não és verme. Este já construiu seu casulo e virou um inseto nobre: uma borboleta, digna dos céus. É um passo, e mesmo uma borboleta pode provocar tempestades.
Mas são os vermes que incomodam o samurai.
O samurai pensa em abandonar os vermes. Sua natureza não é ali, nunca foi. Mas ele sabe que estar com os vermes é uma afirmação de que ele é um samurai, e a única maneira de saber que ele é um samurai, e não um verme, é andando entre os vermes. Suas diferenças ficam evidentes.
O samurai se levanta. Ali ele é um estranho no ninho, não é um verme. E por causa disso, é atacado. Os vermes o criticam, tentam fazer dele um verme também, mas o samurai sabe quem és.
O samurai se levanta, e sai.
Sabe que voltará para a companhia dos vermes, mas até quando?
O samurai senta ao chão com eles, come com eles, bebe com eles, mas de suas bocas só sai groselha enlatada, pronta pra ser degustada por ratos e criaturas dos bueiros. O samurai nada fala, nada faz. Apenas observa em silêncio. Sua katana, chamada "Crítica", está embainhada.
Os vermes, por sua vez, atacam uns aos outros. Todos ficam competindo pra ver quem está certo, que é mais belo, quem "zoa" mais o outro, quem é o "macho alpha". O samurai percebe o clima, percebe o medo entre eles. Os vermes não compreendem, mas o samurai sim. Entre eles há o medo. Não o medo dos heróis, na hora de enfrentar seu Dragão, seu maior desafio, mas o medo dos covardes, o medo dos cachorros, quando veem algo assustador.
O medo de ser menor, ser o mais fraco, de ser zoado e humilhado. O medo do Ego, o medo do verme.
É uma luta terrível, luta de palavras, de diálogos. E no meio da luta, uma deusa passa por perto. Uma mulher linda, com o corpo coberto de mel, que faz os vermes babarem... A deusa caminha longe, e nem olha para os vermes, e tão pouco para o samurai. Mas ainda assim os vermes a endeusam, a glorificam, como um pedaço de carne ambulante, sem perceber sua essência, seu brilho, seu amor. Para os vermes, a deusa é apenas um tesouro a ser conquistado, nada diferente de suas migalhas que os vermes tem.
O samurai apenas observa; ele vê a beleza da deusa, mas por ter conquistado certa sabedoria, sabe que o que importa da ostra, no fim, é a pérola.
Mas como explicar para os vermes?
O samurai tenta, várias, várias vezes. Mas os vermes riem dele, e suas risadas exalam um bafo asqueroso, que faz o samurai se calar novamente.
O samurai pensa que é uma batalha inútil. Vermes são vermes, vermes jamais entenderão o cantar de um pássaro, ou a dança da realidade. Mas o samurai é teimoso, e ainda tenta, mas de nada adianta.
Um verme grita pra todos, pra provar que é mais forte, o verme fala alto, berra. O verme ataca verbalmente todos, mas no fundo, é o mais fraco, e só quer um espaço, um momento pra ser especial. O samurai sabe.
Outro verme é O verme. Ele se vagloriza, se orgulha de ser verme, e acha que todos tem que ser vermes igual ele. Ele não conhece outra natureza, que não seja ser verme, e o samurai apenas o observa, sem falar.
O verme maior bate no peito, se achando o máximo, mas todos o atacam, e ele fica sem ação. Seu histórico é de glórias entre os vermes, mas o samurai sabe, que no fundo, ele jamais quis ser verme, mas como não há escolha, ele é.
Pois assim é o mundo dos vermes, o samurai pensa: Os vermes não tem vontade, não sabem o que querem. Não há escolha para os vermes, exceto ser verme.
Há um, no entanto, que não és verme. Este já construiu seu casulo e virou um inseto nobre: uma borboleta, digna dos céus. É um passo, e mesmo uma borboleta pode provocar tempestades.
Mas são os vermes que incomodam o samurai.
O samurai pensa em abandonar os vermes. Sua natureza não é ali, nunca foi. Mas ele sabe que estar com os vermes é uma afirmação de que ele é um samurai, e a única maneira de saber que ele é um samurai, e não um verme, é andando entre os vermes. Suas diferenças ficam evidentes.
O samurai se levanta. Ali ele é um estranho no ninho, não é um verme. E por causa disso, é atacado. Os vermes o criticam, tentam fazer dele um verme também, mas o samurai sabe quem és.
O samurai se levanta, e sai.
Sabe que voltará para a companhia dos vermes, mas até quando?
(baseado em fatos reais)
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