quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Dualidade e Unidade

Tenho esse texto comigo há anos, guardado no meu computador. De tempos em tempos eu o leio, e sempre absorvo algo novo. Esse texto também tem relação com meu texto anterior, que fala de como a realidade se comporta e se manifesta.

Esse é um ponto de vista mais místico, mas não menos interessante.
Fala sobre equilíbrio, união, religare, yoga...
Aproveite:



Parte do livro Iniciação de Elisabeth Haich - Pg 209 á 214. 

Quando consegui controlar a vontade de falar, voltei a ver Ptahhotep, que me perguntou:
- O que conseguiu aprender durante seus esforços para ficar em silêncio? Aprendeu a dominar apenas a habilidade de manter silêncio?
- Não, Pai, isso é simplesmente impossível! Enquanto lutava com o silêncio, precisei lutar ao mesmo tempo com a palavra. À medida que dominei o silêncio, também dominei a fala. Pois calar-se não significa não falar, e falar não significa calar-se. Não consegui separar as duas coisas. Descobri que, da mesma forma que uma moeda tem dois lados e continua sendo uma unidade, também calar e falar são os dois lados de uma única unidade.
- Certo disse Ptahhotep. Levantando-se, levou-me até um dos grandes blocos de pedra brancos que formavam a parede. Apontou para a superfície branca e lisa da pedra e perguntou:- O que vê na superfície branca?
- Nada- respondi.
- O que posso desenhar sobre ela?
_ Tudo.
-Bem – disse Ptahhotep. – Esse nada então contém em si o todo. Nesse estado ambos formam a unidade perfeita. Podemos reconhecer parte da unidade somente quando ela se separa, desagrega e destaca da unidade. Veja, agora vou desenhar um trevo com tinta verde sobre a superfície. O trevo já está sobre ela antes, você não pode reconhecê-lo, visto que a forma positiva do trevo e a natureza negativa do pano de fundo ainda são uma coisa só. São absolutamente idênticos. A forma do trevo ainda não está separada do todo, que está contido nesse nada. Pelo fato de o trevo aparecer na cor verde, separou-se do todo e tornou-se reconhecível.
“Agora pense em algo muito importante: se o trevo surgiu em cor verde sobre a superfície branca, isso significa que sua forma deixou a cor complementar no todo, nesse caso a cor vermelha, como sua imagem invisível, negativa”. Saiba que tudo o que você vê só é reconhecível porque se separou da metade complementar e esta ficou invisível, não foi revelada!
“Você só obterá o conhecimento comparando os dois lados que se separaram, o lado positivo e o negativo. Enquanto esses dois aspectos continuarem fundidos um no outro, não poderá reconhecê-los, nem conhecer nada.”
“Observe o mundo visível! Ele só pode ser reconhecido porque se separou da unidade, em que nada e tudo ainda repousavam um no outro, portanto separou-se da unidade absoluta a que denominamos de Deus . Só conseguimos conhecer a criação porque o positivo separou-se do negativo e podemos compará-los.”
Não existe conhecimento sem que a unidade se divida em duas metades, uma revela e outra não – o seu reflexo -, o que possibilita reconhecê-las por comparação. Agora venha comigo.”
Ptahhotep levou-me até outro aposento onde colocou uma estatueta sobre uma grande mesa perto da parede branca. Atrás do objeto, à direita e à esquerda, colocou uma lamparina para que a figura projetasse uma sombra nas duas direções. Em seguida, Ptahhotep pegou uma lâmina vermelha transparente e segurou-a diante da luzinha da direita. Para minha grande surpresa, na parede da direita apareceu uma sombra vermelha; contudo, no lado esquerdo projetou-se uma sombra verde-clara!
- Como pode ser isso, Pai de minha alma?- perguntei espantada
- Pense e descobrirá por si mesma a resposta – disse Ptahhotep.
Fiquei em silêncio por alguns momentos, concentrando-me até divisar a solução. Então expliquei:
- A estatueta retém a cor vermelha da luz tornada vermelha e deixa apenas a cor complementar surgir na parede.
Em contrapartida, a estatueta retém toda luz da outra lamparina e, assim, parece que a sombra do outro lado se tornou vermelha.
- Muito bem – disse Ptahhotep.
- As duas cores não podem existir uma sem a outra, da mesma forma que silenciar-se e calar-se. Seja lá o que se revelar no mundo do conhecimento, a parte complementar ficará irrevelada. Quando você fala, o lado negativo do silêncio não é manifestado. Quando você se cala, o lado positivo do silêncio, a fala, não se manifesta. Quando vemos uma montanha, o seu lado negativo tem de ser um vale.
Como seria possível existir uma montanha sem que houvesse vale e um vale se não houvesse montanha?
Nada pode manifestar-se, tornar-se conhecido, sem que o oposto, o contrário complementar, esteja simultaneamente presente na forma invisível.
Quando algo de positivo se manifesta, o lado negativo fica oculto, e vice-versa – quando surge o negativo, o positivo não aparece. 
Onde aparecer um lado, o outro terá de estar presente, nem que seja no invisível. 
O fato de se pertencerem os une para sempre.
Portanto a separação é apenas aparente, porque mesmo que as duas metades complementares estejam separadas e distantes da unidade total, não se distanciam uma da outra e tampouco podem abandonar-se.
A unidade divina inseparável manifesta-se por toda parte, pois também nessa aparente separação continua a atuar entre positivo e negativo.
Eles lutam para voltar ao estado original. Lutam para voltar à unidade divina. Mesmo quando algo aparece no mundo visível, não pode separar-se definitivamente da unidade divina: em alguma ocasião, mais cedo ou mais tarde, voltará a essa unidade, unindo-se à sua metade complementar.
Porém, à força que existe em todos os seres vivos e que obriga essa volta à unidade denominamos Deus.
“A criação, o mundo cognoscível, é como uma árvore! À direita dá frutos bons e positivos, e à esquerda, maus e negativos. Ambos os lados pertencem, no entanto, ao mesmo tronco, à mesma unidade
“Somente pela divisão da unidade, que não é boa nem má, mas divina surgem o bem e o mal. Graças a ela o conhecimento foi possível. Por conseguinte, o mundo cognoscível precisa conter o bem e o mal, caso contrário não é cognoscível nem tampouco possível.
“Toda criação é a árvore do conhecimento do bem e do mal! O criador, Deus, não caiu da unidade e separou-se dela constituindo uma metade reconhecível da unidade, mas Deus é a própria unidade; Ele está acima de tudo o que criou e distanciou-se da unidade, repousando em si mesmo na mais perfeita unidade,
Ele é o nada, que se sobrepõe ao tudo e se manifesta; porém, Nele, o nada e o tudo representam a unidade divina, inseparável!
“A criação sempre representa a metade do todo que se separou da unidade e que pode ser reconhecida por meio da comparação com a metade que ficou oculta.
Portanto, você nunca poderá encontrar Deus, o criador do mundo, nem reconhecê-lo, porque Ele não tem uma metade que o complete, com que seja possível compará-lo.
Na verdade, inexiste a possibilidade de compará-lo com alguma coisa; consequentemente não há possibilidade de reconhecê-lo. Deus só pode ser você mesma!
“Ouça, minha filha: há apenas um ser eterno, um único Deus.
Esse ser único vive em tudo, em tudo vive esse único Deus, que é a unidade indivisível.
Ele é onipresente. Abarca todo o universo. O universo todo vive porque Deus lhe dá vida com o seu ser eterno. Portanto, Deus é como a árvore da vida, que reproduz e dá vida à própria essência do mundo criado, reconhecível, destacado da sua metade complementar, portanto, a árvore do conhecimento do bem e do mal!
Essa árvore, o mundo criado, vive apenas porque a árvore da vida, Deus, insufla a própria vida em suas veias, vivendo nela!
“O mundo material se parece com uma árvore da morte; a árvore do conhecimento do bem e do mal, e o Deus que habita nela, é a árvore da vida que vive em tudo o que foi criado.
Deus é um só. Esse único Deus é o si mesmo, o eu mais íntimo de todos os seres vivos.
Deus está presente em toda parte, e visto que duas coisas não podem ocupar ao mesmo tempo o mesmo lugar e como nada pode desalojar Deus de algum ponto do universo, então em todos os fenômenos só pode estar presente um e o mesmo Deus, como o si mesmo.
Deus é a unidade indivisível. Todos os seres vivos, todas as plantas, os animais e o próprio ser humano são frutos da árvore do conhecimento do bem e do mal; consequentemente estão vivos porque o fluxo vital da árvore da vida flui por suas veias, porque a árvore da vida vive neles!
Também vive em mim, filhinha! E em você: o seu corpo é um fruto da árvore da vida, e você só está viva porque Deus vive em você como o seu eu, mantendo vivos o seu corpo e a sua pessoa.
“Por ter-se encarnado num corpo, você se tornou em ser cognoscível. Você separou sua consciência do nada e do tudo, separou-a de Deus, do seu eu verdadeiro. Saiu do paraíso divino original, onde todas as possibilidades de manifestação, portanto todas as plantas, todos os animais e o próprio homem, ainda são uma unidade total.
Você caiu na multiplicidade, na diferenciação. É uma revelação, uma criatura. Consequentemente, tudo o que você é aqui na Terra é a metade revelada da unidade, mescla do bem e do mal. E visto que seu consciente foi transferido para o corpo, você despertou nele, isto é, a sua consciência tornou-se idêntica ao corpo.
“Comer” alguma coisa significa “tornar-se idêntico”. Pois você é o resultado do que come, você é o que come. Pelo fato de a sua consciência identificar-se com o corpo, simbolicamente falando, você comeu os frutos da árvore do conhecimento do bem e do mal e tornou-se mortal.
“No entanto, ouça. O corpo é o resultado e a consequência da separação, ele é apenas a metade visível do seu eu verdadeiro. A outra metade ficou na parte inconsciente, na parte invisível de seu ser. Quando unir essas duas metades complementares, poderá reencontrar a unidade divina!
É impossível viver a unidade fisicamente torna visível, corpórea a metade inconsciente e unir as duas. Pois uma consciência não pode dar vida a dois corpos. Se quiser viver a essência da metade complementar em seu corpo, isso significará a morte. Se ele se tornou visível justamente por se ter separado de sua metade complementar, a reunião acarretaria a morte como consequência. Mas você pode viver a unidade divina com sua metade complementar ainda no corpo, num estado de consciência! Você pode ampliar, estender seu consciente até tomar total conhecimento do seu inconsciente , até sentir a sua metade invisível de forma consciente e desta forma, concretizar a unidade divina na sua consciência. Enquanto o corpo vive no mundo visível manifestado, você pode fundir outra vez o seu verdadeiro eu de que se afastou, numa perfeita unidade, e , enquanto ainda viver na vida material a bem-aventurança divina, poderá ser Deus.
“Essa luta pela reintegração está em tudo o que foi criado.
Todo o ser vivo procura sua outra metade, a fim de tornar a unir-se com ela. Os fenômenos positivos- os masculinos – procuram os negativo-femininos e vice-versa. Essa luta das forças positiva e negativa compõe até mesmo a mais profunda estrutura da matéria. Em outras palavras: não haveria matéria se não existisse essa luta. Pois essa luta pela unidade- pelo estado de ser Deus- ocasiona a força de atração entre as forças positivas e negativas, e todo o universo está construído sobre essa luta pelo estado divino primitivo. A fonte de todas as forças da manifestação do mundo é justamente ela. A natureza se utiliza dessa luta e, projetada para o corpo, ela se transforma em energia sexual.
“Mas enquanto um ser vivo procurar a outra metade do seu lado exterior, no mundo criado e reconhecível, nunca encontrará a unidade, porque sua metade complementar não está nesse lado, na revelação, separada dele, mas unida, no próprio inconsciente irrevelado.
Não poderia existir qualquer ser vivo se a outra metade não estivesse no plano invisível.
Veja, minha filha, observe-se: o oposto de tudo o que você é e revela em sua parte consciente, e que torna manifesto, está contido no seu inconsciente, que, no entanto, também lhe pertence, pois ele também é você.
Não encontrará a metade que a complete no exterior; também não a encontrará num homem de carne e osso. Conseguirá encontrá-lo no inconsciente do seu próprio eu. Se unir essas duas metades do seu eu na consciência, voltará a participar do nada e do tudo, tornando-se idêntica a Deus!
“E visto que nessa união que acontece em seu consciente cessa a eterna saudade do seu ser material, pois ele encontrou seu complemento e com este fundiu-se numa unidade, o seu desejo sexual também acaba. Você se sentirá perfeita, viverá na vida física o estado divino: a imortalidade, a felicidade. Você terá se completado! E como em cada ser vivo habita o mesmo e único ser, você se tornará idêntica ao ser verdadeiro de cada ser vivo, assim que despertar o seu verdadeiro eu. Obterá a unidade com Deus mas, simultaneamente, também com o universo. Elevará a consciência do seu corpo, do seu ser pessoal e viverá a consciência cósmica total. Em cada ser vivo, em todo o universo, em Deus, você se sentirá como um “eu”. Isso significará que você terá comido da árvore de novo os frutos da árvore da vida! Você terá passado do mundo dos efeitos para o mundo das causas primordiais, do transitório para o eterno, do manifesto para o princípio criador e do reino da morte para o reino da vida, no ser eterno. Isso é a Iniciação!”

Ptahhotep parou de falar. Mas vejo essa unidade divina concretizada em seus olhos de profundidade inescrutável e celeste. Desses olhos irradiam-se a felicidade infinita, a paz e a tranquilidade, e estas passam para minha alma. Em seu olhar vejo a realização da verdade.
Em seguida ele me abençoa, e eu parto.

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