terça-feira, 5 de agosto de 2014

Areias do deserto

  O Ladrão se esgueira furtivamente pelo universo. Uma mistura de Nada e Tudo dançando ao seu redor. Ele não sabe onde está, mas sabe exatamente para onde está indo.
  Em algum instante de sua jornada, um instante insignificante, onde o Ladrão estava perdido em devaneios, ele se depara com um deserto. O Ladrão não sabia que deserto era aquele, nunca ouvira falar dele, mas ainda assim o Ladrão continua a caminhar pelo deserto.

  O deserto em si é bastante curioso. Não é quente como os outros, nem frio; no deserto apenas venta, e muito. Há dunas altas como montanhas e planícies vastas como campos. Nada parece real naquele deserto, tudo parece se modificar, se fazendo e se desfazendo a cada instante, a cada piscar de olhos, a cada respiração.

  Confuso com a metamorfose do lugar o Ladrão continua marchando, procurando algum ponto de referência. Suas botas não são apropriadas, nem suas roupas: aquele deserto não era seu objetivo final, mas estranhamente ele sentia algo familiar. Então o Ladrão continuava a caminhar.
  Desbravando lentamente as areias que insistem em cair em seus olhos e cabelos, o Ladrão mantém sua marcha. Há momentos em que sente profundo cansaço, mas suas pernas insistem em continuar, como se elas tivessem a certeza de saber aonde ir. Elas insistem em levá-lo para longe, um passo de cada vez, como as badaladas de um sino, como o tic-tac de um relógio.
  O Ladrão julga ver algo, mas por se tratar de um deserto ele acha que é uma miragem. Mesmo assim ele direciona suas pernas para o local. A miragem cresce a cada passo; e o Ladrão fica cada vez mais surpreso com o que vê.
  Relutante em acreditar em seus próprios olhos ele vê: um velho sentando em um banco, no meio do deserto.



***
  Neste ponto da narrativa eu pretendo fazer uma pausa. É uma pausa curta para situar o leitor do universo deste conto.
  O Ladrão é um ser. Não um ser humano, mas apenas um ser. Não sabemos o que ele é exatamente, mas a primeira vez que o conheci ele me foi apresentado como uma idéia. Essa idéia em si foi se desenvolvendo, ganhando forma e personalidade. Dei a ela o nome de ‘Ladrão’, por achar apropriado, por sua natureza.

  Ora, veja bem: Eu sabia o nome da idéia, mas não sabia nada a seu respeito. Então eu, como um bom escritor, questionei essa idéia, sua origem e objetivo.
  Não pretendo transcrever aqui todo o rico diálogo que tivemos, pois seria cansativo demais para o leitor. Tudo que preciso que saiba é que o Ladrão está em uma missão; sua missão é roubar um valioso tesouro de um velho, que por uma incrível coincidência ele acaba de encontrar no deserto.
  Portanto, sigamos com a narrativa.
***

  O Ladrão se aproxima relutante, ainda não acreditando na sua incrível sorte de encontrar o velho em um local inesperado. Mesmo com suas vastas habilidades de furtividade o velho acaba detectando o pobre Ladrão (que inutilmente se escondia atrás de um cacto bebê).
  O velho vê a frustrante tentativa de camuflagem do Ladrão; o velho até mesmo ri daquilo. Mas com algum carisma inexplicável o velho convida o Ladrão a se aproximar. Sem ter como resistir, o Ladrão vai.
  Curiosamente o velho segura em suas mãos uma peneira. Com um pouco de habilidade que sobrara de seus dias de juventude o velho pega um punhado de areia do deserto e a faz jorrar pelos dedos, passando suavemente pelos pequeninos buracos da peneira. O Ladrão observa a cena. Ele vê que no momento em que a areia atravessa o buraco, o sol reflete em seus cristais, dando à areia um tom dourado. Antes que a areia atravessa e depois que a areia atravessa a peneira esse fenômeno não ocorre.
- Quem é você? – questiona o Ladrão, mesmo sabendo com que estava falando.
- Ora meu jovem Ladrão, você sabe quem eu sou. – responde o velho. – Eu sou aquele que sempre está aqui. Aqui e agora.
- Somente Deus está ‘Aqui e Agora’. E você não é Deus.
- Não. Não tenho natureza divina, sou antes desse fato. Eu sou aquele que todos lutam a vida inteira, mas que jamais poderão vencer; eu sou aquele que corre pra todos os lados e que jamais poderá ser preso; eu sou aquele que existe antes e que existirá depois, mas que ao mesmo tempo nunca existiu. Eu sou o Tempo. E quem é você, meu jovem?
- Eu sou o Ladrão.
- Eu sei que és. Se chama assim porque veio roubar algo que me pertence.
- Vim. Não importa o que faça velho, forças superiores me deram a ordem, eu vou roubar, não há nada que você possa fazer para impedir. Está escrito.
- Há algo que posso fazer: Posso te dar de presente. Um presente não é um roubo, não é? Suas ordens foram pra roubar, não pra ganhar.
  O Ladrão pareceu confuso, mas ao pensar sobre ele viu que o velho tinha razão. O velho, por sua vez, continuou fazendo jorrar a areia através da peneira, de uma maneira quase mecânica.
  Foi então que o Ladrão lembrara outra vez do deserto:
- Velho, me disseram que eu lhe encontraria em um mar. – disse o Ladrão.
- Todo deserto um dia foi um mar e todo mar um dia será um deserto. É apenas questão de tempo. – disse o velho.
- Me disseram que lhe encontraria em outra forma.
- O que disseram foi verdade. Quando aqui era um mar eu era uma tartaruga, mas como aqui é um deserto eu sou um velho garimpeiro.
- Garimpeiro?
- Sim, garimpeiro.
- Você procura ouro nesse deserto? Você é um velho tolo!
- Você procura o mesmo...
- Então o seu tesouro é ouro?
- Sim. Você veio para rouba-lo.
- O senhor sabia que eu viria?
- Sim. Isso já aconteceu. Vai acontecer um dia e está acontecendo agora.
- Então me dê. Me dê o ouro!
- Vai querer como presente ou vai me tirar à força?
- À força.
  Então o velho se virou para o Ladrão e fitou seus olhos (pois o velho jamais parara de fazer jorrar a areia pela peneira).
- Então você terá que me matar. Somente assim conseguirá o que quer. – disse o velho.
  Por um instante o Ladrão questionou consigo mesmo se esse seria o ato correto, mas logo que os pensamentos lhe fugiram ele sacou a sua adaga que estava presa no cinto e cortou a garganta do velho.
  O sangue escorreu para todos os lados, penetrando nas areias em volta, formando pequenos rios vermelhos para todas as direções. A peneira fora jogada de lado e a areia parou de jorrar.
  O Ladrão olha para o velho, tendo pena de seu destino e imediatamente depois ele o saqueia.
  Só encontra uma coisa entre suas roupagens: uma caixa. Não era uma caixa qualquer, o Ladrão reconhecera a caixa. Era uma caixa de presente.
  Na tampa da caixa estava escrito: ‘Para o Ladrão; do seu amigo, o Tempo’.
  Surpreso por ter sido enganado, o Ladrão chuta a areia a sua volta. Com raiva ele grita aos ventos dançantes do deserto. Ele pega a sua própria adaga (que também ganhara de presente) e arremessa para longe de si.
  Depois de se concentrar e respirar profundamente, ele para. Observa uma última vez o velho, a peneira e a areia que jamais voltará a fluir. E pensa que, em todo caso, sua missão estava cumprida.
  Só havia um porém: O item não era roubado, era um presente. Portanto, o seu empregador não o merecia, o presente era dele, de mais ninguém.
  Sentindo a sede morder seus lábios, ele observa a caixa com a fita vermelha balançada pelo vento diante de si. O presente era dele, afinal. Somente dele. Se fosse um roubo o objeto seria do seu empregador, mas como era um presente para ele...
  Sem esperar mais tempo o Ladrão rompe o lacre e fita o interior da caixa. O que ele vê é nada mais nada menos do que a areia fluindo pela peneira.
  Foi só ai que ele sente o seu corpo, sente suas pernas, sente seus dedos tocarem a caixa. Sente seus pés afundarem na areia do deserto, seu pulmão respirar o vento forte. Ele sente seu coração bater a cada segundo, ele sente que está vivo.
  O Ladrão finalmente entende o significado do presente.

  Não é passado, não é futuro: é agora.
  É tão simples como transformar chumbo em ouro.

***
  Não é o papel do escritor explicar o significado dessa fábula. Se o leitor não a entendeu, então eu o convido a ler novamente, mas em outro momento. Por enquanto descanse e medite no que acabou de ler. Aqui jaz um conhecimento muito rico, que um dia lhe pode ser útil.

***

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